Saber Sair – texto original de Jacinto Malungo, adaptação de Victor Hugo Mendes.

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Saber sair.

O mundo, a vida e os momentos dão voltas e há que saber ler cada tempo no seu devido tempo.

Na política e na vida, saber sair é uma virtude. Mas todos conhecemos pessoas que dominados pelo medo, mal aconselhadas por gente oportunista, elas próprias gananciosas e medrosas geraram para si o colapso que seria evitado se tivessem saído a tempo. Não tenho dúvidas de que é melhor sair quando poderíamos ter ficado, do que ficar quando deveríamos ter saído há muito tempo. Essa é a verdade que muitos políticos africanos e só teimam em não seguir e no fim de tudo passam uma triste vergonha.

A política vive obcecada com a conquista. Ganhar eleições. Alcançar maiorias. Resistir a crises. Prolongar mandatos. Tudo isto é conhecido. Entretanto, a maturidade democrática não se vê quando se chegar ao poder. Vê-se pela capacidade de o deixar. E foi precisamente isso que vimos quando Nelson Mandela deixou o poder na África do Sul, e foi este o erro cometido por José Eduardo dos Santos, ex presidente angolano se tivesse deixado o poder em 2008, talvez ainda hoje estaria em vida cuidando dos seus netos e a dar conferencias como vemos Pedro Pires ou Joaquim Chissano.

Saber sair e sair em grande foi o que vimos há dias em Portugal com o fim do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa e a entrada em cena de António José Seguro na presidência.  Saber sair é um gesto de lucidez. É perceber que o tempo político não coincide com o tempo biográfico, social e até cultural. É perceber que nenhum cargo é a extensão da identidade pessoal. Saber sair é não confundir os momentos. Esta é a verdade que João Lourenço não quer aceitar e é o mal que se verifica com Frelimo em Moçambique que apesar de mudar de presidentes teima em segurar o poder sem a aceitação de grande parte do seu povo, com o MPLA não é diferente.

A legitimidade tem prazo, mesmo quando são feitas manobras à lei para continuar. Saber sair é respeitar os ciclos. Os ciclos existem para proteger o sistema das pessoas, e as pessoas de si próprias, porque o poder é viciante. Este ponto, faz-nos lembrar Umaro Sissoco Embaló da Guiné-Bissau. Quando um responsável político sai no momento certo, reforça a instituição que serviu, mas quando insiste em permanecer para além do razoável, fragiliza o próprio sistema. Saber sair é compreender que, por mais honradas e necessárias parecerem os projectos e intenções, a ideia de indispensabilidade é perigosa.

Por mais que se escreva ou se aconselhe alguns líderes africanos e não só, não aprendem as lições. A democracia não precisa de insubstituíveis. Precisa de regras. E de quem as respeite, mesmo quando isso significa abdicar. Transições pacíficas são o mais alto sinal de civilização política. Não apenas nas presidências ou nos governos, mas nos partidos, nas organizações públicas e privadas. No mundo empresarial deverá prevalecer o bom senso e sabedoria para se saber sair. Já no público é a escolha do povo que deve ser respeitada como acontece em cabo Verde ou Brasil por exemplo. É verdade que onde há poder, há tentação de permanência, mas saber sair é o último acto de resistência. É ser revolucionário.

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Saber sair é também um acto de confiança. Confiança de que o projecto colectivo é maior do que o protagonismo individual.

 

 

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