A arte de bajular e a desgraça de terminar mal

tre

O país grita, as vezes alto demais, outras vezes silenciosamente nos corredores das empresas públicas e privadas e até nos óbitos. O mal está instalado e é alimentado por um partido político que mudou de figura após ter sido tomado um bando de oportunistas, bajuladores, bandidos e por gente com alma vendida. Os bajuladores são aparentemente felizes e poderosos, armados em donos da verdade, vivem quase na perfeição a arte que lhes permite mudar de cor e tática para a sua sobrevivência.

Bajular é uma arte antiga e persistente: muda de forma, mas nunca desaparece. Nos gabinetes ministeriais ou nas empresas modernas do país, há um bajulador que prospera porque o poder que se conquista sem mérito prefere ouvir o seu eco.

O bajulador não elogia por convicção, mas por cálculo; não admira, investe. A bajulação afunda o partido e tal como a corrupção, é um cancro que se espalha a velocidade da luz pelo país. Alguém tem de parar essa gente, é preciso que se troque a camisola fedorenta, tamanho é o desespero por mais anos no poder. O partido foi conquistado por bajuladores com a sua reverência estratégica, mas quando o chefe atinge o seu objectivo, o bajulador é descartado feito papel higiénico acabado de limpar a parte rabática do endeusado.

O mal da bajulação começa quando se substitui a crítica honesta. O líder deixa de ouvir alertas e passa a colecionar aplausos. Cria-se uma bolha onde tudo parece perfeito — até que a realidade, indiferente aos elogios, impõe a conta. O antro é composto por vadios, preguiçosos, vaidosos e egocêntricos unidos sem piedade sugam a Nação inteiras porque o seu voraz apetite material não tem limites. Há jornalistas, juristas, pseudo-empresários, financeiros, juízes e não só, cúmplices da desgraça em que se encontra o país. Projetos falham, decisões erradas acumulam-se, e o poder, isolado pela vaidade, perde o rumo graças a implusão do sistema. O bajulador, porém, raramente cai com o mesmo estrondo: é ágil, muda de lealdade com a mesma facilidade com que o abutre muda de carcaça.

Como tudo, há um fim para os bajuladores, normalmente triste, solitário e deprimente. O fim regista-se quando o sistema muda, a transparência se impõe, quando se valoriza o contraditório e quando os líderes preferem a verdade desconfortável ao aplauso fácil. O bajulador é duro, é surdo. O país grita por basta, mas o chefe não ouve, o povo morre a fome, as crianças sem escolas, hospitais sem medicamentos, jovens sem futuro e idosos arrependidos porque viram ontem como tudo se foi construindo, mas optaram por se calar agora sem forças pagam caro. Aqui o ajusto também é directo.

O bajulador é sedento pelas luzes da ribalta. Ataca os intelectuais e traí sem dó amigos próximos e familiares. São homens e mulheres, muitos deles inteligentes e estudiosos, mas dominados pela insegurança e pelo medo, deixam-se arrastar por um mal pernicioso. O partido está refém desta estirpe. O país precisa de verdade e porque na arte da obediência restrita ao chefe, às vezes, o melhor caminho é mesmo o da desobediência. Já não se fazem homens com tomates, mulheres com clarividência e sistemas que defendem os mais frágeis.

Eles estão em fim de ciclo, é importante que despertes a tua consciência sob pena de seres amanhã abandalhado por aquele que na sua doença egocêntrica ajudaste-o com a arte da bajulação para que as coisas fossem o que são hoje, com forte tendência para piorar amanhã.

Leia o mais recente livro de VHM 

Quem hoje nos governa, precisa acordar e pôr a mão na consciência, tomar a mais dura decisão para salvar a pátria ou enterrar as promessas que fez um dia, e mais tarde mijar-se nas calças ou morrer exilado, porque quem alimenta a bajulação, a corrupção e a desgraça do seu povo, será devorado por tudo isso.

Ca se faz e cá se paga. Se te calas perante a injustiça, não reclames quando a justiça te faltar.

Por Victor Hugo Mendes

 

 

Partilhar o post:
Selecione a moeda
EUR Euro